A amante do meu marido entrou na festa de família de braço dado com ele, deu-me uma bofetada e sorriu.
— Em breve, esta família será minha.
O pior não foi a bofetada.
Foi perceber que Andrei, o meu marido, estava ao lado dela e não fez absolutamente nada.
Passei lentamente os dedos pela face, limpando a marca vermelha do batom, e olhei para o homem com quem tinha vivido durante três anos.
Ele desviou os olhos.
Nesse momento, Nikolai Kravchenko, o meu sogro, bateu suavemente com os dedos na longa mesa.
— Chega. Agora é a minha vez.
A sala ficou em silêncio.
Nikolai levantou-se.
— Marina, dá-me três minutos.
Andrei empalideceu.
— Pai, não te metas. Isto é entre mim e a minha mulher.
— Não. Seria entre vocês se tivesses falado com ela em privado. Mas trouxeste a tua amante para uma festa onde está toda a família. E essa mulher acabou de agredir Marina dentro da minha casa.
Valeria continuava agarrada ao braço dele.
— Que diferença faz? — perguntou com arrogância. — Marina terá de aceitar. Andrei já não a ama.
Nikolai olhou para ela.
— Receio que seja a senhora quem terá de aceitar uma nova realidade esta noite.
Eu não fazia ideia do que ele queria dizer.
Naquela manhã, ainda tinha esperança de salvar o casamento.
Durante meses, Andrei regressava tarde, escondia o telemóvel e ficava irritado sempre que eu fazia perguntas.
Suspeitava de uma traição.
Mas nunca imaginei que ele fosse trazer a amante para casa dos próprios pais.
Às 21h20, a porta abrira-se.
Andrei entrara de fato escuro.
Ao lado dele estava Valeria, com um vestido vermelho.
Trinta familiares olharam para os dois.
— Mãe, pai, esta é a Valeria — anunciou.
E Valeria acrescentou:
— Estamos juntos há quase um ano.
Olhei diretamente para o meu marido.
— Diz-me que ela está a mentir.
Andrei suspirou.
— Marina, não faças uma cena. Falamos depois.
Foi nesse instante que Valeria decidiu que tinha vencido.
Aproximou-se, agarrou-me pelo pulso e murmurou:
— Está na altura de perceberes a mensagem.
Quando lhe pedi que me largasse, deu-me uma bofetada.
Andrei não fez nada.
Agora Nikolai retirava um documento do bolso interior do casaco.
— Andrei, nos últimos quatro meses pediste várias vezes mais poderes sobre as contas da empresa.
— Isso são negócios.
— Também insististe para que eu deixasse de discutir assuntos financeiros com Marina.
— Porque ela não percebe nada disso.
Nikolai soltou uma pequena gargalhada.
— É precisamente aí que estás enganado.
Entregou-me os documentos.
Andrei avançou imediatamente.
— Marina, não pegues nisso.
Peguei.
Era um relatório de auditoria interna do grupo de investimentos Kravchenko.
No início, vi apenas números.
Depois reparei no nome de uma empresa.
VS Capital.
E no nome da proprietária.
Valeria Sokolova.
Durante oito meses, várias quantias significativas tinham sido transferidas para aquela sociedade.
Levantei os olhos.
— Transferiste dinheiro da empresa para ela?
— Eram investimentos — respondeu Andrei rapidamente.
— Não — disse Nikolai. — Era uma tentativa de retirar ativos antes da alteração da estrutura acionista.
Valeria largou o braço de Andrei.
— Que alteração?
Nikolai olhou para mim.
— Marina, lembras-te do primeiro projeto do Andrei?
Claro que me lembrava.
Pouco depois do casamento, Andrei decidira criar a própria empresa de investimentos.
Os bancos recusaram financiá-lo.
Até Nikolai considerou o projeto demasiado arriscado.
Fui eu quem vendeu o apartamento que herdara da minha avó e investiu 180 mil euros.
Andrei queria tratar o dinheiro como um empréstimo informal.
Nikolai recusou.
«Família é família, mas dinheiro deve ficar documentado», dissera-me.
Por insistência dele, assinei um contrato de investimento.
Depois praticamente esqueci-me dele.
— Segundo esse contrato — explicou Nikolai —, quando a empresa atingisse determinado valor, o investimento de Marina seria convertido automaticamente numa participação no grupo.
Fez uma pausa.
— Trinta e quatro por cento.
Fiquei imóvel.
— Tenho trinta e quatro por cento?
— Tens.
Valeria virou-se para Andrei.
— Disseste-me que a empresa era tua.
Ele não respondeu.
Nikolai retirou outro documento.
— E ainda não terminei.
Andrei levantou-se.
— Pai, chega!
— Foste tu quem decidiu transformar isto num espetáculo familiar. Agora vais ouvir a verdade diante da mesma família que escolheste para humilhar a tua mulher.
Nikolai colocou o segundo documento à minha frente.
— Tenho quarenta e dois por cento do grupo. Há um mês, depois de descobrir as transferências suspeitas, alterei as condições do fundo familiar.
Andrei ficou branco.
— O que fizeste?
— Não vais herdar as minhas ações.
— Sou o teu único filho!
— E foi exatamente por seres o meu único filho que desculpei demasiadas coisas.
Nikolai virou-se para mim.
— A minha participação passará para uma fundação familiar. Marina será a presidente dessa fundação.
Valeria afastou-se de Andrei.
Finalmente compreendi.
O meu marido não tinha medo do divórcio.
Tinha medo de perder o controlo da empresa.
— Vais deserdar-me por causa dela? — gritou.
— Não. Estou a afastar-te por causa das tuas próprias decisões.
Nikolai consultou o relógio.
— Desde as 21h00, os teus poderes como diretor executivo estão suspensos. Os bancos já foram informados. Não podes movimentar fundos sem uma segunda autorização.
O telemóvel de Andrei vibrou.
Depois novamente.
E uma terceira vez.
Ele olhou para o ecrã.
O rosto mudou completamente.
Valeria percebeu também.
— E a transferência de amanhã? — perguntou ela.
Andrei virou-se bruscamente.
— Cala-te.
Nikolai olhou para Valeria.
— Que transferência?
Ela percebeu imediatamente o erro.
— Eu não quis dizer…
— Claro que não. Ainda bem que temos cerca de trinta testemunhas.
Valeria agarrou na mala.
— Não vou ficar aqui a participar nesta loucura.
Andrei correu atrás dela.
— Valeria!
Ela parou junto à porta.
— Disseste que dentro de um mês serias dono de tudo.
— Eu consigo resolver isto.
Valeria olhou para ele friamente.
— Telefona-me quando resolveres.
E saiu.
Observei o meu marido.
De repente, já não sentia ciúmes.
Nem sequer queria uma explicação.
Apenas estava cansada.
Andrei aproximou-se.
— Marina, por favor. Vamos para casa e conversamos.
Olhei para ele.
— Para casa? Qual delas? Aquela onde escondeste a tua amante durante quase um ano ou esta, onde decidiste apresentá-la à tua família?
— Cometi um erro.
— Não.
Retirei a aliança.
— Esquecer uma data é um erro. Dizer algo errado num momento de raiva pode ser um erro. Uma relação de quase um ano, transferências escondidas e humilhar a tua mulher diante da família são escolhas.
Coloquei a aliança sobre a mesa.
— E quando ela me bateu, ainda tiveste alguns segundos para me mostrar quem eras.
Andrei baixou os olhos.
— Mostraste-me.
Saí da casa dos Kravchenko naquela noite.
Dois dias depois, o meu advogado iniciou o processo de divórcio.
A investigação financeira demorou meses. Foram encontradas outras transferências e contratos de consultoria suspeitos. Grande parte dos fundos foi recuperada.
Andrei perdeu o cargo de diretor executivo.
Valeria desapareceu da vida dele pouco depois de perceber que a fortuna que lhe tinha sido prometida já não existia.
Mas a maior surpresa aconteceu depois.
Nikolai ofereceu-me um lugar permanente no conselho de administração.
Agradeci-lhe, mas pedi outra coisa.
Queria recuperar aquilo a que tinha renunciado depois do casamento.
A minha arte.
Sete meses depois, reabri o meu atelier.
Desta vez, não era uma pequena sala.
Criámos um grande centro para jovens artistas, com estúdios, uma galeria e pequenas bolsas para quem não tinha possibilidades de pagar formação.
Nikolai foi uma das primeiras pessoas a chegar à inauguração.
Ficou muito tempo diante de um dos meus quadros.
Nele, uma mulher estava parada junto de uma porta aberta.
Atrás dela havia uma casa escura.
À frente, a luz da manhã.
— É sobre aquela noite? — perguntou Nikolai.
Sorri.
— É sobre a manhã seguinte.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Arrependes-te de alguma coisa?
Olhei para o espaço cheio de pessoas.
Durante anos, pensara que perder Andrei significaria perder uma família, segurança e futuro.
Agora percebia que tinha sido exatamente o contrário.
— Só me arrependo de ter confundido paciência com amor durante tanto tempo.
Nikolai assentiu.
— E eu confundi a ambição do meu filho com caráter.
Um ano depois, o divórcio ficou concluído.
Mantive a minha participação legítima no grupo, mas deixei a gestão diária nas mãos de profissionais e voltei à pintura.
Andrei tentou contactar-me várias vezes.
A última mensagem dizia:
«Se pudesse voltar àquela noite, faria tudo de maneira diferente.»
Li-a uma vez.
Depois apaguei-a.
Porque aquela noite não destruiu o nosso casamento.
Apenas revelou aquilo que já estava destruído.
Valeria tinha entrado naquela festa convencida de que iria ocupar o meu lugar na família.
Mas, quando saí daquela casa, compreendi finalmente que nunca deveria ter precisado de Andrei, do apelido Kravchenko ou da fortuna deles para saber qual era o meu lugar.
Durante demasiado tempo tentei conquistar um lugar à mesa de outra pessoa.
Naquela noite, levantei-me dessa mesa.
E finalmente comecei a construir a minha própria vida.