O salão inteiro ficou em silêncio quando Sofia colocou a mão na de Lucas.
Até poucos segundos antes, dezenas de convidados conversavam sob os lustres de cristal de um dos hotéis mais luxuosos de São Paulo.
Sofia, de vinte e três anos, estava sentada em sua cadeira de rodas ao lado do pai, Henrique.
Então Lucas parou diante dela.
“Confia em mim… Eu vou te ajudar a dar um passo.”
Sofia olhou para a mão dele.
Seu coração disparou.
Durante quase dois anos, ela havia feito fisioterapia depois de um grave acidente. Seus médicos sempre foram cuidadosos: a recuperação era lenta, suas pernas continuavam muito fracas e ninguém podia prometer que ela voltaria a andar normalmente.
Mas recentemente Sofia conseguira ficar em pé com apoio.
Lucas, que acompanhava sua reabilitação, sabia disso.
Henrique, porém, ainda via a filha como a jovem que quase perdera naquela noite terrível.
“Não!” ele interrompeu. “Ela não consegue andar!”
Lucas permaneceu tranquilo.
“Estou perguntando a ela.”
Sofia respirou fundo.
“Estou com medo…”
“Eu estou aqui. Confia em mim.”
Ela segurou sua mão.
Com a outra, apoiou-se firmemente no braço da cadeira.
Lucas estabilizou seu corpo sem puxá-la.
Sofia levantou-se devagar.
Suas pernas tremiam.
Alguém entre os convidados prendeu a respiração.
Então ela avançou um pé.
Um único passo.
Pequeno.
Instável.
Mas real.
Henrique levou a mão à boca.
Sofia começou a chorar.
Foi então que, perto do palco, uma taça quase escapou da mão de Augusto Almeida.
O empresário de setenta e cinco anos ficou imóvel.
“Meu Deus…” murmurou. “Igualzinha à mãe dela…”
Sofia ouviu.
Virou o rosto lentamente.
“À minha mãe?”
Henrique empalideceu.
Augusto percebeu imediatamente a reação dele.
“Henrique?”
O pai de Sofia se levantou.
“Não faça isso aqui.”
Sofia voltou para a cadeira com a ajuda de Lucas.
O esforço havia sido suficiente.
Mas agora suas pernas eram a última coisa em que pensava.
“Pai, quem é esse homem?”
Henrique não respondeu.
Augusto se aproximou.
“Qual era o nome da sua mãe?”
Sofia franziu a testa.
“Helena.”
Augusto fechou os olhos.
Quando voltou a abri-los, estavam cheios de lágrimas.
“Helena Almeida?”
Sofia olhou para o pai.
Henrique abaixou a cabeça.
E naquele momento ela entendeu que ele sabia.
“Pai?”
Henrique finalmente falou:
“Augusto é seu avô.”
Sofia sentiu como se o chão tivesse desaparecido.
Durante toda a vida, Henrique lhe dissera que os pais de Helena haviam morrido antes de ela nascer.
Era mentira.
Vinte e quatro anos antes, Helena Almeida era a única filha de Augusto.
Criada numa família milionária, ela deveria, segundo o pai, casar-se com alguém do mesmo círculo social.
Então conheceu Henrique, um jovem engenheiro sem riqueza ou sobrenome importante.
Eles se apaixonaram.
Augusto proibiu o relacionamento.
Helena escolheu Henrique.
“Eu disse coisas imperdoáveis”, confessou Augusto. “Disse que, se ela saísse de casa, deixaria de ser minha filha.”
Helena saiu.
Poucos meses depois descobriu que estava grávida.
Augusto esperou que ela voltasse.
Ela esperou que ele pedisse desculpas.
Nenhum dos dois cedeu.
Anos se transformaram em décadas.
“Mas minha mãe morreu quando eu tinha sete anos”, disse Sofia. “Por que você nunca apareceu?”
Augusto olhou para Henrique.
“Porque eu não sabia.”
Sofia se virou para o pai.
Henrique respirou com dificuldade.
Depois da morte de Helena, Augusto havia enviado cartas.
Henrique devolveu todas.
Ele ainda culpava o sogro pelos anos de sofrimento de sua esposa.
Quando Augusto tentou procurar Sofia pessoalmente, Henrique ameaçou impedir qualquer contato.
“Você me disse que ele estava morto”, Sofia falou.
“Eu queria proteger você.”
“De quê?”
Henrique não conseguiu responder.
Augusto retirou do bolso uma fotografia antiga.
Helena tinha vinte e três anos nela.
Usava um vestido azul-escuro.
Sofia ficou sem palavras.
O rosto era quase o mesmo.
“Foi por isso que eu disse aquilo”, explicou Augusto. “Por um segundo, achei que estava vendo minha filha.”
Henrique finalmente começou a chorar.