A música parou quando uma menina de sete anos abriu as portas do salão e gritou:
— Papai! Espera!
Duzentos convidados se viraram ao mesmo tempo.
Debaixo de um arco coberto de flores brancas, Ricardo Almeida estava prestes a dizer “sim” à mulher com quem pretendia passar o resto da vida.
Mas, ao ver sua filha Helena correndo pelo corredor, chorando desesperadamente, ele esqueceu a cerimônia.
— Helena? Filha, o que aconteceu?
A menina parou diante dele, com os ombros tremendo.
— Papai… depois que você casar, não vai mais me amar?
Ricardo se ajoelhou imediatamente e segurou as mãozinhas dela.
— Meu amor, por que você está perguntando isso? Você é minha filha. Eu nunca vou deixar de te amar!
— Mas ela disse que você não vai mais precisar de mim…
A menina levantou o braço e apontou para a noiva.
O sorriso de Camila desapareceu.
Um silêncio pesado tomou conta do salão.
Ricardo olhou para a mulher.
— Camila, do que ela está falando?
— Ricardo, pelo amor de Deus, não faça uma cena. Ela entendeu tudo errado.
Helena começou a chorar ainda mais.
— Não entendi errado! Ela disse que depois do casamento eu ia morar com a vovó. Que vocês iam ter filhos de verdade e que eu estava atrapalhando.
Ricardo ficou imóvel.
Filhos de verdade.
Aquelas palavras pareciam impossíveis de ouvir.
Helena era sua única filha. A mãe da menina, Mariana, havia falecido três anos antes, depois de uma doença grave.
Naquela época, Helena tinha apenas quatro anos.
Ricardo ainda se lembrava das noites em que ela acordava chorando, procurando a mãe pela casa.
Ele prometera que nunca a abandonaria.
Quando conheceu Camila, dois anos depois, acreditou que a vida estava oferecendo uma segunda oportunidade para os dois.
No começo, a namorada parecia adorar Helena.
Comprava presentes, preparava bolos e dizia que sempre sonhara em ter uma família.
Mas, depois do noivado, tudo começou a mudar.
Os brinquedos de Helena foram retirados da sala. Os desenhos que ela prendia na geladeira desapareceram. A fotografia de Mariana foi guardada em uma caixa.
Camila dizia que a casa precisava de uma nova energia.
Ricardo, ocupado administrando sua empresa, não percebeu o sofrimento crescente da filha.
Até aquele instante.
— Helena, por que você não me contou antes? — perguntou, com a voz embargada.
— Porque ela disse que, se eu contasse, você ia ficar bravo e me mandar embora antes do casamento.
Ricardo fechou os olhos por um segundo.
Então, uma senhora saiu do meio dos convidados.
Era dona Lúcia, avó materna de Helena.
— Ricardo, preciso contar uma coisa.
Ela respirou fundo.
— Ontem Camila me ligou perguntando se Helena poderia morar comigo depois da lua de mel. Disse que você já tinha concordado.
Ricardo se levantou lentamente.
— Eu nunca concordei com isso.
Camila apertou o buquê.
— Eu só queria que tivéssemos algum tempo como marido e mulher! Sua filha poderia ficar com a avó por uns meses.
— Minha filha tem uma casa, Camila.
— Você está exagerando! Eu não disse que seria para sempre.
— E os filhos de verdade? — ele perguntou.
Camila desviou o olhar.
— Você sabe muito bem o que eu quis dizer.
Ricardo percebeu, naquele momento, que não conhecia a mulher com quem estava prestes a se casar.
Retirou a aliança que carregava no bolso e a colocou sobre a mesa da cerimônia.
— O casamento está cancelado.
Camila começou a chorar.
— Você vai jogar fora nosso futuro por causa de uma criança?
Ricardo pegou Helena no colo.
— Não. Estou protegendo o futuro da minha filha.
Ele deixou o salão com Helena nos braços e dona Lúcia ao lado.
Naquela noite, Ricardo não voltou para a festa.
Comprou pizza, colocou um desenho animado na televisão e ajudou a filha a espalhar seus brinquedos favoritos pela sala.
Depois, tirou a fotografia de Mariana da caixa e devolveu ao lugar onde sempre estivera.
Antes de dormir, Helena segurou a mão dele.
— Papai, você ficou triste porque não casou?
Ricardo acariciou seus cabelos.
— Fiquei triste porque demorei a perceber que você estava sofrendo.
— E se você gostar de outra mulher?
Ele sorriu.