Regressei a casa dois meses antes do previsto, sem avisar ninguém. Assim que saí do elevador, o meu vizinho Harold aproximou-se, visivelmente nervoso.
— Daniel, podes pedir ao homem que vive no teu apartamento para fazer menos barulho?
Fiquei imóvel.
— Que homem? O apartamento está vazio há dois meses.
Harold empalideceu. Contou-me que um desconhecido vivia no 10B há várias semanas. Saía todas as manhãs, recebia encomendas e cumprimentava os vizinhos como se fosse o verdadeiro proprietário.
Ignorei o pedido de Harold para esperar pela polícia e abri a porta com a minha chave.
A casa cheirava a café e roupa lavada. Havia uma caneca quente sobre a mesa, óculos que não me pertenciam e a máquina de lavar loiça ainda estava morna.
Então reparei no corredor.
Todas as fotografias da minha família tinham desaparecido.
Nesse momento, a porta do quarto de hóspedes abriu-se. Um homem de meia-idade surgiu, usando o meu roupão.
— Quem é você e como entrou no meu apartamento? — perguntou, irritado.
— Este apartamento é meu.
O desconhecido olhou para a minha mala e sorriu friamente.
— Não devias ter voltado mais cedo.
Antes que pudesse aproximar-se, ouvimos sirenes. Harold tinha chamado a polícia.
O homem tentou mostrar documentos que provavam que se chamava Daniel Carter — o meu nome. Tinha uma cópia do meu passaporte, contratos de eletricidade e até correspondência bancária enviada para aquela morada.
Mas cometeu um erro.
A fotografia no passaporte era minha.
A polícia encontrou dezenas de documentos falsificados no quarto, juntamente com as fotografias que ele retirara das paredes. Dentro de uma mala estavam cartões bancários, contratos de crédito e pedidos de venda do apartamento.
O responsável era Victor Hale, antigo funcionário da empresa que organizara a minha missão no estrangeiro. Tivera acesso às minhas datas de viagem, documentos pessoais e morada. Planeava assumir a minha identidade e vender a casa antes do meu regresso.
Os gritos noturnos tinham uma explicação: Victor discutia ao telefone com um cúmplice — o administrador do prédio, que lhe entregara a chave-mestra em troca de dinheiro.
Ambos foram presos.
Nas semanas seguintes, recuperei as minhas contas e anulei os contratos fraudulentos. Voltei a colocar as fotografias da minha família nas paredes, mas instalei novas fechaduras e câmaras de segurança.
Harold recusou qualquer recompensa.
— Os vizinhos devem cuidar uns dos outros — disse.
Naquela noite, finalmente dormi na minha cama. Contudo, antes de apagar a luz, olhei para a porta fechada.
Victor quase roubara a minha identidade, a minha casa e a minha vida.
Só falhara por sessenta e dois dias.