A menina não devia ter chegado viva ao portão principal.
Foi isso que Lucas Blackwood pensou quando o intercomunicador crepitou no meio da tempestade.
— Senhor… há uma menina pequena no portão — disse o chefe da segurança.
Lucas estava no escritório da mansão Blackwood, a observar a chuva bater nos jardins. Sete dias antes, alguém tinha colocado uma bomba debaixo do seu Bentley. Desde então, ele não confiava em ninguém.
— O que ela quer?
— Diz que veio para uma entrevista de limpeza. A mãe não pôde vir hoje.
Lucas ficou em silêncio por alguns segundos.
— Revistem-na. Depois tragam-na cá acima.
Pouco depois, a porta abriu-se.
A menina entrou com sapatos velhos, cabelo castanho preso de qualquer maneira e um avental branco enorme, enrolado várias vezes à cintura. Nas mãos pequenas, segurava uma folha dobrada.
— Boa noite, senhor — disse ela, tentando não tremer. — Chamo-me Emma Carter. A minha mãe está doente, por isso vim no lugar dela.
Lucas, que já vira homens perigosos implorarem diante dele, não soube responder imediatamente.
— Vieste sozinha?
Emma baixou os olhos.
— Não. A minha mãe está no carro. Ela não consegue andar bem.
Lucas mandou trazê-la imediatamente.
Quando os seguranças entraram com uma mulher pálida, encharcada e quase sem forças, o mundo de Lucas parou.
— Sarah… — murmurou ele.
Ela levantou o rosto, assustada.
— Eu não queria vir aqui. Mas eles encontraram-nos.
Lucas sentiu o sangue gelar.
Sarah tinha desaparecido sete anos antes. Disseram-lhe que ela o abandonara por medo da vida dele. Ele acreditou. Sofreu em silêncio. Tornou-se ainda mais frio.
Agora ela estava ali, com uma menina que tinha os olhos dele.
— Emma é minha filha? — perguntou ele, quase sem voz.
Sarah chorou.
— Sim. Eu fugi para a proteger. Alguém da tua própria casa me ameaçou. Disse que, se eu contasse a verdade, ela morreria.
Antes que Lucas respondesse, um disparo quebrou a janela do corredor.
Emma gritou.
Lucas puxou a menina para trás de si e pegou na arma sobre a secretária. Naquela noite, pela primeira vez em anos, não lutou por poder. Lutou pela família que lhe tinham roubado.
Antes do amanhecer, o traidor foi descoberto: um dos seus homens vendia informações aos inimigos. Foi ele quem plantara a bomba. Foi ele quem mantivera Sarah longe.
Quando o sol nasceu, Sarah dormia em segurança num quarto da mansão. Emma estava sentada ao lado de Lucas, segurando a sua mão.
— Vai mandar-nos embora? — perguntou a menina.
Lucas olhou para ela e sentiu o coração, há muito tempo fechado, voltar a bater.
— Não, Emma. Nunca mais.
E, naquele dia, a mansão Blackwood deixou de ser uma fortaleza.
Tornou-se finalmente um lar.
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